O ano era 1993, eu tinha 10 anos. Lembro quando estourou nas paradas What´s up?, canção de refrão mega-grudento, mas muito boa de se ouvir. Parece que ela estava esperando por mim, até. (“25 anos e minha vida ainda é uma escalada por uma grande montanha de esperança, por um destino”. Que coisa, não?)
Naquele ano, minhas irmãs faziam encontro de jovens, coisa que nunca fiz, apesar de ter sido rata de igreja também. E lá tinha um cara, o Cao, que cantava essa música tal e qual no disco. O que me fazia perguntar se aquela música era cantada por um homem ou uma mulher. Tive sensação parecida quando ouvi Catedral, com a Zélia Duncan, pela primeira vez: é um cara de voz fina ou uma mulher de voz grossa? Não tinha me rendido ainda ao encanto de um contralto poderoso.
O fato é que minha irmã do meio adorava essa música e quis o destino que essa canção fosse o “love theme” do início de namoro dela com o cabeção que hoje é meu cunhado e pai do meu sobrinho. (Tudo bem que essa canção não fala niente de amor, mas o mundo é estranho desde essa época.)
Pula pra 1999. Minha irmã ainda namorava o cabeção e eu namorava um baterista ruim pra cacete de uma banda igualmente ruim pra cacete, se bem que até interessante em termos de punk rock e hardcore, os Intermitentes. Eles ainda existem? Acho que não, picardia não dura a vida toda.
Estávamos celebrando o fim da década e do século XX. Era um ano com gosto de adeus. O ano em que o mundo acabaria, segundo as previsões de Nostradamus. Enquanto o mundo não acabava, então, a gente enchia a cara de vinho barato, tocava violão e ouvia muito grunge. Meu camisão xadrez era capaz de ir sozinho pra escola e fazer a prova de português, de tanto que eu usava o pobre. E tal do mundo não se acabou. Ai, que chato.
No final deste ano, o namoro com o baterista ruim pra cacete já estava pior do que ele tocando bateria, dando sinais que acabaria em breve. E minha irmã acha o “inachável” CD dos 4Non Blondes para comprar, depois de anos de procura (ou não). Comprou para ela e um The Cranberries² para mim, banda que gosto bastante também.
Não contente apenas com The Cranberries, fui ouvir o 4Non Blondes da minha irmã, obviamente quando a pobre estava trabalhando e eu moscando em casa, porque eu sempre fui caçula do tipo vampiresca. E tive uma epifania, daquelas que o Forrest gosta tanto de descrever no Music Inside My Head. Que banda, que som. Fiquei completamente fissurada pela voz de leoa da Linda Perry, como sou até hoje.
Ouvindo o Better, bigger, faster, more da primeira à última faixa, percebe-se de cara que 4Non Blondes não se trata de uma simples “one hit wonder band”. O álbum todo é fantástico, muito bem produzido, e tem o equílibrio perfeito entre o pop e o alternativo. Tem a sujeira grunge dos anos 90 (mesmo que a banda não fosse grunge, mas isso estava no clima da década) e fórmulas batidas do pop bem aproveitadas, mas também há raízes profundas da música norte-americana: blues, country, rock n´roll. Ou seja, é um álbum completo. Dizem até que houve um segundo álbum gravado, nunca lançado.
Nunca consegui saber direito o motivo do fim da banda, é que é difícil ser fã de uma One Hit Wonder Band, ainda mais em tempos pré-Internet. Mesmo hoje, não existe muita coisa. A teoria do oráculo Wikipédia é que Linda saiu em 1996 em carreira solo, por achar o trabalho da banda muito pop. Realmente, ela tinha potencial para ser muito mais rock n´roll do que ela vinha mostrando no 4 Non Blondes, mas mesmo assim, acho isso lorota. Devem ter ganhado tanto dinheiro com What´s up? , que daria para se aposentar por quatro gerações.
Entre a lorota e a realidade, acabo de formular a minha teoria. O primeiro álbum da banda acertou na mosca, mesmo não tendo nada de novo, necessariamente. É como eu já disse, foi muito bem feito, bem equilibrado. Não havia mais para onde ir, simplesmente. Difícil bater um álbum bom daquele, se bem que descobri nas minhas caçadas ao Santo Youtube, uma canção nunca lançada em disco que eu achei muito boa, e mostra o vozerão de leoa da Linda:
Como eu fico brava quando dizem que 4 Non Blondes é uma one hit wonder band, mesmo que seja ( E daí? Secos & Molhados duraram dois álbuns apenas, mas suficientes para abalar bangu), eu deixo o link para download no 4Shared, e que minha parca audiência tire suas conclusões. Façam suas apostas, crianças.
O fato é que este álbum está no meu relicário de lembranças adoradas (Ê, Bozoca!). Quando o namoro com o baterista ruim pra cacete estava mal, mas muito mal das pernas, eu ouvia Drifiting (‘À Deriva’) sem parar. Ai, meu Deus, que bode.
Depois, para curar o bode, resolvi entrar numa banda, e virei ‘cantora de um hit só’. Advinha qual era a música? Isso mesmo, ‘What´s up?’. Minha passada por essa banda não durou muito tempo, por algum motivo não rolou, mas aí já era tarde. Better, bigger, faster, more já tinha passado feito um rolo compressor na minha vida³.
Ps:
1 – Referência ao nome da banda, que segundo a lenda, seria “para gente não loira” (4 Non Blondes).
2 – O álbum que eu ganhei da minha irmã dos Cranberries, é o No Need To Argue, outro clássico dos anos 90.
3 – Um agradecimento singelo, porém verdadeiro a todos personagens deste ‘causo’ musical: desde o Cao, que com certeza não se lembra niente de mim, à minha irmã, por ter achado essa pérola em uma prateleira qualquer da Virtual Music, ao meu cunhado, porque tocava bateria enquanto eu era cantora de um hit só, e até ao Mauro, meu ex-baterista ruim pra cacete. (E ao Forrest, que não faz parte do conto, mas que me ensinou a postar vídeos do Youtube!!! Tá bom, eu descobri a pólvora, eu sei.)
Empolgada pelo Music Inside My Head, do meu vizinho e crítico musical da Blogosfera sem Audiência, estou fazendo algumas mudanças nos Textículos.
Primeiro é que estou colocando links para downloads nos textículos da categoria Toptoptop, copiando descaradamente a idéia do baterista da nossa banda ainda sem nome. Estreei com o link dos álbuns do Trash Pour 4, no textículo Eu quero que você se… PopPopPop! . Aos poucos, vou colocando nos outros textos que falam de música também.
E os Textículos em breve vão ficar de cara nova. Coming Soon! (Somente a versão Blogspot)
Cansei de falar do menino que eu gosto, ele é um tremendo de um boboca. Hoje vou falar do meu irmão, meu vizinho preferido e das galáxias: Luiz, Filipe, Forrest, ou se ainda preferir, Luiz Filipe.
Companheiro de blogosfera fracassada, de muro da vergonha e agora de banda, eu o conheço desde que me entendo por gente. É o meu amigo mais antigo.
Depois de passarmos por momentos muito tristes, a gente tem estado mais próximos do que nunca. E ele estreou “mais um superfracasso da blogosfera”: Music Inside My Head.
Musical como ele só, consegue ouvir música tanto num copo que se quebra na cozinha, quanto no vibrafone de brinquedo do meu sobrinho. Viciado em música no último nível, de um jeito que só conheço apenas duas outras pessoas: eu e Bozoca, outra criatura mega amada que pre-ci-sa de um textículo assim, só pra ela como eu de ligas grená! (Risos)
Como ele sempre teve um senso de observação apuradíssimo, apegado a detalhes e com uma memória de elefante (não é à toa que ele virou historiador), é óbvio que ele se tornou um crítico musical da melhor qualidade. Sempre foi, na verdade. A única coisa é que agora ele parou de regular sua mixaria e resolveu socializar!
A idéia é falar das músicas que, por algum motivo, “ficam martelando na cabeça, perdemos o controle e não conseguimos parar de escutar”. Canções que carregam alguma lembrança, significado, ou só prendeu a atenção naquele momento. Como ele é “historiador e contador de mentiras sobre si mesmo”, suas críticas tem este charme especial, e ainda o bonitão disponibiliza as músicas de que ele fala para download. Ou seja, um verdadeiro pecado não visitar. O link está no texto e na coluna “Blogs Camaradas” da versão Blogspot dos Textículos. Go ahead!
Este Blog de Vida Dupla Mais sem Audiência do Ciberspaço, como sabem, veio depois dos diários de papel, mas não os sucedeu: é como se fosse meu marido e o meu diário, o amante, que pego na calada da noite em busca de proteção e abrigo.
Recomecei com os diários no fim de 2002, na época para registrar a minha meditação. Só que eu sou samsara demais para desvendar a vida sentada em flor-de-lótus. Cá estou eu na galhofa outra vez.
Aos poucos a vida comum foi entrando nesses registros, mas é meu mundo interno que impera lá, como nos diários de Frida Kahlo. Acho que isso é resqúício da meditação, da contemplação. É o meu modo de entender a vida.
Todas as cartas de amor são ridículas, todas as mulheres são putas e todos os díários são patéticos. O meu não deixaria de ser, lindamente patético. É muito engraçado ler aquela observação tão definitiva sobre uma coisa completamente fugaz. Com algum treino você não se envergonha disso.
Ultimamente, porém, estes diários da segunda fase assumiram a forma de um diário de uma adolescente, igual ao que eu tinha quando tinha 12 anos. Daqueles que os meninos roubam para ler e tripudiar da dona depois, munidos do segredo da pobrezinha. Daqueles que se fala do seu amor secreto (o meu agora é declaradamente escancarado). Daqueles em que não se fala outra coisa a não ser do menino que se gosta. O menino que eu gosto não me dá a menor bola, sabe? (Mas não tô nem aí, isso é problema dele).
Escrevendo eu me descubro e não enlouqueço, e muito cedo nesses diários que tenho feito desde os vinte anos (blues), eu vi que o que um diário mais quer é ser revelado. Ninguém escreve nada para não ser lido. O que explica o náufrago que joga no mar uma garrafa com um bilhete para qualquer um que encontrá-la? Save our souls.
(Alimento essa fantasia quase sexual: que o menino que eu gosto roubasse todos meus diários e os lesse, um por um, às escondidas. Ele sabe disso.)
Ando jogando tantas garrafas no mar, que se o Greenpeace me pega, eu estou frita. Estou escrevendo demais, como se fosse morrer amanhã. E de todos os jeitos possíveis: aqui, no diário, compondo canções, cartas inentregáveis, e-mails insuportavelmente longos. Só deixei de escrever poesia, porque nem meu muso me lê! Não tem a menor graça.
Inentregáveis merecem um capítulo à parte. Cometi essa insanidade de entregar uma inentregável ao menino que gosto. E virou inlegível. O bruto não se deu o trabalho de ler, porque para ele são palavras apenas, palavras pequenas… Palavras ao vento.
Diz o ditado que palavras o vento leva, principalmente sobre essas de promessas não cumpridas, esses amores que acabam na base do ‘tudo certo e nada resolvido’. Por mim, o vento pode levar minhas palavras, como aquela peninha do Forrest Gump. Alguém vai encontrar e ler as mensagens na garrafa.
O menino que eu gosto não sabe da missa a metade. Não sabe que antes de ser apaixonada por ele, sou apaixonada pela vida, que está me tratando como um cão sem dono tanto quanto ele está. E que, tanto quanto ele, me faz a mulher mais feliz do mundo, mesmo sem tê-lo agora. Mas de uma coisa ele sabe: o menino que eu gosto não é O Amor da Minha Vida. O Amor da Minha Vida é o Drummond! Só ele é capaz de me entender agora. “Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo.”
Estou quase acabando de ler o 1984 emprestado pelo meu Vizinho das Galáxias, mas não dá para aguentar esperar o fim para falar que ando ‘duplipensando’ horrores ultimamente. Fui ainda incentivada por Minduim. Explico.
Em Novilíngua, Duplipensar é um estado de alienação consciente (ou de consciente alienação, se preferir). Significa manter estas duas polaridades unidas para perpetuar o poder, numa Oceania imaginária, dominado por um Ingsoc tirano, totalitário e… de esquerda.
Neste mundo de ‘democracia, com responsabilidade social e ambiental’ – tenho que citar Minduim nessa, não tem como – regado a muito Jornal Nacional e Revista Veja, parece que não há mais a ‘ameaça’ de uma Ditadura do Proletariado daquelas. Até Fidel pendurou as chuteiras! A classe média-mediana-medíocre suspira aliviada. E nem precisa de Vick Vaporub.
Tenho nojo desse mundo, dessa pseudo-liberdade. Estamos vivendo o 1984 mesmo, à base de Grande Irmão, Polícia do Pensamento e Teletela. Se eu ainda vivesse o sonho pós-geração 60, mesmo atrasado, tudo bem, já até fiz isso. Mas agora, nem nas instituições de esquerda eu acredito mais. Aliás, para mim, ultimamente estas duas esferas se completam, e essa descrença veio como se fosse canção do Cazuza, num corte lento e profundo, e sem razão definida.
O auge do meu duplipensar aconteceu na última sexta. Paralisação dos professores. Eu fui, sozinha. Não quis me misturar. Em vez disso, sentei na calçada, e abri o 1984. Depois de uma hora, fui embora, não desci a Consolação junto com a passeata. Fiquei pensando que catzo que eu sou: alienada ou covarde? Pendi mais para o lado do covarde, entendo o que está acontecendo. Só que descer pro play e não brincar nunca foi comigo, então porque fui até o vão livre do MASP? Com o livro na mão, caiu a minha ficha (sou oitentista, tá bom?): é duplipensar na sua forma mais pura.
Talvez seja o que eu faça pra não enlouquecer com a minha descrença, afinal é muito triste viver sem esperança. Mas esperança burra eu também não quero. Então, “deixai toda a esperança, vós que entrais!” Seguindo Dante Alighieri, ao cruzar os portais do Inferno, troquei o idealismo pelo cinismo: não quero mais mudar o mundo, quero é mudar de mundo. O movimento ganha cada vez mais adeptos, é só entrar na minha comunidade no Orkut. Escolha o planeta de sua preferência e go ahead, com ou sem esperança, pode entrar.