Textículos de Mulher

Entradas do Agosto 2008

Canções que acabam antes do fim

Agosto 12, 2008 · 1 Comentário

Meninos, meninas e similares. Calipígios e onanistas,
Minha parca e seleta audiência, o silêncio de ultimamente não foi proposital. Ando calada pela dor de uma ausência banal. Como é banal, não me dei ao trabalho de chatear meus leitores por conta de uma estupidez que não é minha.
Agora, porém, vamos ao que interessa. Tenho falado muito de música ultimamente, porque é esta é uma paixão constante na minha vida, e na vida de muitas outras pessoas também. E quando eu acreditava que a música era para mim um sonho perdido, eis que ela bate à minha porta novamente – quase do nada. Eu larguei a música durante um tempo, mas ela não me largou.
Existem canções de diversas durações. Podem ser breves quanto uma canção comercial, para tocar no rádio ou durarem mais de uma hora, como uma sinfonia. Não importa a duração, canções tem que ter começo, meio e fim. Conclusão, fechamento.
Pensem em alguma música, a preferida, daquelas que são capazes de tirar a gente deste mundinho chato enquanto a gente ouve.  Você está lá, pirando no seu som preferido. E de repente a canção acaba. Sem aquele “lá-lá-lá” do final. Simplesmente cessa. Chato, né? Um verdadeiro balde de água fria. Pois então, assim pode ser a nossa vida. Acabar antes que a canção se complete, como se do nada a pilha do rádio acabasse. Eu não tenho medo que a minha canção dure pouco e sim de que ela acabe antes do fim. Foi o que aconteceu com um colega de trabalho na última sexta. Sua canção parou de tocar de uma hora para outra. Aliás, quando ela estava apenas começando. Eu não consigo deixar de achar isso estúpido.
Por mais que a gente saiba de cor e salteado da fragilidade da nossa vida, a gente nunca aprende: sempre se acha invencível. E a nossa canção também pode acabar antes do fim, como a do Vinícius ou a do Chico (no último dia 29 fez um ano que sua canção parou de tocar). E assim, caímos sempre no mesmo erro, tal e qual um disco riscado, movidos pela mesma prepotência arrogante de sempre, e assim, fatalmente, a nossa canção desafina.
Se eu falar mais alguma coisa sobre o fim da nossa canção, cairei em clichês, em melôs manjadas de Karaokê¹. Não resisto, porém, ao charme dos clichês mais piegas, por serem os mais sinceros e verdadeiros, apesar de nada criativos.
Fecho, então, com o mega-clichê sobre a morte, em uma das canções da Pitty, que não figura entre as minhas compositoras favoritas, mas vá lá: “Não deixe nada pra depois, não deixe a vida passar/ Não deixe nada pra semana que vem, porque semana que vem/Pode nem chegar.”
(Espero que nossas canções cheguem até o fim. E isso não é só questão de fatalidade, inexorabilidade. Uma pequena parte da composição cabe à nós, acreditem. Os meninos não tiveram tempo de concluir as deles, mas pode ser que a gente tenha mais sorte. É melhor aproveitar.)

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Amy, Amy, Amy

Agosto 3, 2008 · 2 Comentários

Há muito tempo essa maluca com cabelo de colméia merecia um textículo só pra ela. Ela foi meu rito de passagem para os meus 25 anos, na minha escalada por esta montanha de esperanças².


Não veio antes porque estas coisas precisam de estalos e estes ainda não tinham vindo. E eis que nessa semana Sandra Dee-que-loucura me manda um email com fotos da Amy Winehouse, numa espécie de melhores e piores momentos da maluca em questão. E me assustei, porque os piores momentos são de f****. O ó da decadência.

Não que eu não tivesse visto estas fotos antes, mas todas elas juntas dão uma certa náusea. E pena. Afinal ela é bonita (sim, originalmente Amy Winehouse é bonita), jovem e está lá, no bicaço do urubu. São motivos clichê e piegas, mas absolutamente sinceros. Porque Britney Spears e Paris Hilton, por mim, podem cheirar uma carreira de um metro que eu não tô nem aí. Só que pela Amy eu lamento sim, porque ela é talentosa pracaralho, não tem outra definição. (Muita gente também diz isso, mas geralmente referindo-se apenas a seu vozerão de negona do Bronx. E ela é inglesa.) Só que se esquecem que ela também é uma compositora fantástica. Nos seus dois álbuns tem tudo: jazz, hip hop, soul, letras surpreendentes, arranjos encorpados, e tudo isso resultou em uma coisa que anda faltando na música pop em geral: originalidade.

Acho que essa originalidade, rara hoje em dia, fez com que essa maluca inglesa roubasse minha pobre alma definitivamente. E frases como “Ele se vai, o Sol se põe/ Ele leva o dia embora, mas já sou crescidinha. /Minhas lágrimas secam sozinhas” (Tears Dry on their own), cantadas como se fosse uma prece. Só um brutamontes é capaz de não se comover com isso. E eles existem. Aos montes.


Não gosto do tratamento dado para ela na imprensa. Porque é público e notório que ela não dá as suas bozadas para aparecer. Gostei quando Andrew Lloyd Weber, que não é qualquer um, saiu em defesa da Amy, dizendo que ela é uma pessoa que não sabe lidar com seus conflitos e com seu talento. Ela realmente sofre. Claro que um papparazzo está pouco se importando com os conflitos existenciais de uma celebridade drogada e presa fácil, mas a tratam como se ela fosse uma espécie de avis rara. E ela é um ser humano. Acho que esta fonte de escândalos que ela se tornou é justamente porque ela não tá nem aí para os holofotes que a rodeiam. It´s just a girl.


Gosto dessa humanidade em excesso que ela tem. A parte ruim é que ela sofre com isso. Mas tem faltado isso nas pessoas públicas em geral, todas elas parecem ser … de cera. (Coincidência ou não, sua estátua no Madame Tussauds foi inaugurada esses dias. Ela não quis ver. Certa ela. É como se todos estivessem já adiantando seu fim. E se ela se recusou a ir, é porque ainda estão rolando os dados.)

 

Este duplipensar me mata. Tratada como excêntrica porque se mostra humana em todos seus conflitos, é dada como “morta” para a música, e no entanto está aí, enchendo as páginas de escândalos, sendo celebrada e desprezada na mesma medida. Olha só:

Final de 2007. Junto com Victoria Beckham, é considerada a celebridade inglesa mais cafona. E alguns meses depois, a Vogue faz um ensaio com Isabeli Fontana posando de Amy Winehouse. E isso ecoou aqui em terras tupiniquins, na época do Fashion Week, só que com a Gisele Itié. Peraí: cafona, mas ícone fashion? Eita, mundo estranho.


Como eu quero mudar de mundo, não quero mais brincar de entender essa gente estranha. O fato é que as canções dessa desmiolada fazem parte do meu mundo e de outras pessoas também. Realmente não sei se ela sobrevive a tanto ‘tóchico’, mas mesmo que sobreviva, é difícil bater o Back to Black. Se ela estivesse bem já seria difícil, com toda a sorte de problemas que ela tem que superar agora – sobreviver, inclusive – eu confesso que meu coraçãozinho de fã tem poucas esperanças. Estou tentando me contentar com seus dois álbuns de estúdio.


Poucas, mas existem. Torço para que ela se reinvente, calando a boca dessa gente careta e maldita³. Ela merece, eu acho.


Referências:


1 – Última canção do primeiro álbum, Frank. A Musicoteca tem os dois álbuns na íntegra.


2 – Penúltimo textículo, “Para gente não loira”.


3 – Alusão à Joana, cançao bem-humorada do segundo álbum da Ana Carolina.

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